Temática LGBTQIA+ na odontologia

Você sabe por que o atendimento desta população pode ser considerado especial?

Pesquisas acadêmicas têm chamado a atenção para como a ausência da temática LGBTQIA+ como pauta social e clínica nos currículos dos cursos da saúde no Brasil podem impactar na formação e atuação dos profissionais, revelando muitas vezes que os profissionais não são adequadamente preparados para atender essa comunidade, inclusive cirurgiões-dentistas. Isso nos leva a refletir como esta falta de preparo pode impactar na saúde destes possíveis pacientes.

Há diversos fatores sociais que corroboram para dificultar, ou até mesmo excluir a população LGBTQIA+ do direito básico de acesso aos serviços de saúde, como o preconceito e a discriminação.  Sabendo disso, reflita conosco: 

  • Você lembra quantas vezes essa temática foi abordada na sua formação em odontologia? 
  • Sabe por que o atendimento da população LGBTQIA+ pode ser considerado especial? 
  • Já recebeu pacientes transexuais no seu consultório? 
  • Você sabia que a terapia hormonal pode afetar a saúde bucal destes pacientes? 
  • E como você pode contribuir com as causas desta comunidade? 

Você sabe o que significa a sigla LGBTQIA+?

  • L de Lésbicas;
  • G de Gays;
  • B de Bissexuais;
  • T de Transexuais, travestis e transgêneros;
  • Q de Queer (pessoas que transitam entre os gêneros ou não binários, que não se identificam com o feminino ou masculino);
  • I de Intersexo (pessoas que nascem com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não se encaixa na definição típica de sexo feminino ou masculino).  
  • A de Assexuais (que não sentem atração afetiva-sexual por outras pessoas, independente do gênero). 
  • + de outras possibilidades de orientação sexual ou identidade de gênero. Como os pansexuais, que sentem atração por outras pessoas independente da orientação sexual ou de gênero delas. 

Uma revisão sobre a temática LGBT na formação do cirurgião-dentista

Para entender o que se tem publicado sobre diversidade sexual e de gênero na odontologia, a Dra. Tainá Schenal, de Florianópolis-SC, fez uma revisão bibliográfica sobre a temática.

Assim, na pesquisa para o trabalho de conclusão de curso, em 2018, ela encontrou apenas 9 trabalhos publicados, relacionando termos de busca em português, espanhol e inglês, porém com nenhum trabalho encontrado em português. Ela foi a pioneira no idioma. 

Em contato com os centros de ciências odontológicas no Brasil, a pesquisadora constatou que há menos de 4 horas nos currículos das graduações dedicados a essa temática, espalhadas em forma de seminários ou palestras. Porém, “os alunos nem sabem os espaços que tem, não sabem como acessar ou reconhecer”, contou. 

Dra. Tainá, destaca que além de não haver muitos trabalhos abordando diversidade, os existentes são na maioria sobre patologias. Dessa forma, aponta uma mudança necessária na base curricular dos cursos de graduação. 

 “A mudança teria que ser estrutural no currículo. De uma forma que inclua essa temática, e de uma forma diferente do que tem sido incluído. Porque a gente percebeu que quando inclui a temática LGBT+, inclui patologizando, falando de HIV, DTS e ITS. É sempre esse estigma de que o paciente LGBT+ tem que ser estudado em relação a alguma doença”.

Além disso, a pesquisadora acredita que também é importante ter uma abordagem sobre o contexto social da comunidade, para evitar preconceitos e discriminação à população. 

No mesmo ano, em 2018, o cirurgião-dentista Felipe Cerqueira, de Feira de Santana na Bahia, realizou outro estudo pioneiro no mundo, sobre a temática LGBTQIA+. O trabalho não apareceu na pesquisa da Dra. Tainá porque ainda estava em desenvolvimento na época que ela fez a consulta.  

O impacto da ausência da temática LGBTQIA+ na formação de odontologia 

Dr. Felipe realizou um estudo sobre os efeitos da terapia hormonal na saúde bucal de mulheres transexuais. Integrante da comunidade LGBTQIA+, motivado pela contribuição à essa população e pelos relatos de pessoas transexuais, travestis e transgêneros sobre a dificuldades em acessar serviços preventivos e encontrar profissionais preparados para um atendimento adequado. 

Atestando a pesquisa de Dra. Tainá, Dr. Felipe relata que teve muita dificuldade em encontrar referências para dar início às investigações, pois além de não haver trabalhos publicados sobre o tema, alguns assuntos não são abordados na matriz curricular da graduação

“Por exemplo, saber que a gengiva contém receptores de hormônios ovarianos eu não sabia, isso eu aprendi pesquisando”.  

Ele tomou como base para a pesquisa, estudos sobre os hormônios em mulheres na fase da puberdade, gravidez e uso de contraceptivos orais, e apontou os assuntos que seriam necessários incluir no currículo para dar uma base melhor de atuação profissional. 

Para o atendimento das meninas que fazem a terapia hormonal cruzada, por exemplo, a gente ter que ter conhecimento sobre cadeia hormonal, de endocrinologia periodontal, de mudanças no sistema fisiológico, entender um pouco mais sobre anatomia e receptores de hormônios. A gente precisa ter um conhecimento mais profundo para poder investigar.” 

A terapia hormonal e seus efeitos na saúde bucal de mulheres trans

Com o auxílio do Centro de Referência LGBT de Salvador ele encontrou as mulheres transexuais para realizar o estudo. Dr. Felipe e sua dupla acompanharam 37 mulheres trans por cerca de 9 meses, realizando exames clínicos, anamnese, exames intraorais e outros exames em contato com endocrinologistas. As principais manifestações bucais encontradas nas pacientes foram: cárie, halitose e xerostomia.  

Em uma enquete realizada pela Dental Speed com nossos seguidores no instagram, perguntamos se os cirurgiões-dentistas já haviam atendido pacientes em transição hormonal. Das 192 pessoas que responderam a enquete, 18% dos afirmaram já ter atendido. Porém, 52% não sabiam que a transição hormonal impacta na saúde bucal do paciente.  

Este resultado, que também mostra o desconhecimento de parte dos profissionais sobre o assunto, faz parte da rotina do Dr. Felipe, desde que ele publicou seu trabalho sobre o tema. 

O dentista que hoje faz pós-graduação em Farmacologia, tornou-se referência no atendimento para a População LGBTQIA+, e tem ajudado os profissionais de saúde a compreenderam a importância da atuação deles no acolhimento dessa comunidade. 

“A gente precisa inserir na matriz curricular e falar disso, de hormônios, falar de transição e gênero, de nomenclaturas, a gente precisa saber tratar esses pacientes. É dever do profissional de saúde. Acho que falta um pouco de preparo acadêmico.” 

Dr. Felipe Cerqueira já realizou diversos cursos e palestras sobre o tema, e recebe dúvidas frequentes de colegas e até mesmo de professores, sobre como proceder em atendimentos e casos clínicos, principalmente envolvendo mulheres trans. Para ele, o atendimento da população LGBTQIA+ não deveria ter que ser tratado como especial, “mas é pelo jeito que a gente tem que acolher esse paciente”, apontando problemas na estrutura sociocultural que perpetua atitudes de preconceito e discriminação. 

À exemplo da falta de debate na faculdade, o estudante Jefferson Leal, cursando o segundo período de Odontologia na Universidade Federal de Minas Gerais, já participou de um projeto de extensão chamado ‘Odontologia para LGBTs’, mas observou a falta de interesse dos colegas heterossexuais no tema. Por isso, ele também acredita ser necessário incluir o tema na matriz curricular.

 “Eu acho que deveria ter uma disciplina, ao invés de um projeto a parte, porque a gente vai atender uma paciente assim, uma hora ou outra”. 

Quer ouvir o bate-papo completo no Spotify? Confira nosso podcast Odonto em Pauta.

Odontologia Humanizada

Sendo assim, como o profissional da saúde pode promover à saúde bucal para população LGBTQIA+?

 “O atendimento deve ser humanizado, livre de qualquer preconceito, gênero, raça, cor, religião, sexualidade”

ressalta Dr. Felipe Cerqueira.  

A Dra. Tainá pesquisou sobre a temática LGBT na formação do profissional de odontologia, para abrir os olhos da categoria para o tema, mesmo não sendo parte da comunidade. Com empatia pela causa, ela enfrentou a estranheza dos colegas, para trabalhar em prol de uma odontologia mais humanizada

“É importante a gente se colocar na dor do outro. Eu nunca sofri esse preconceito, mas eu não preciso sentir isso para saber que eu não quero que outro sinta. Se é um tema que eu posso pesquisar e eu posso ajudar para que esse público não sofra preconceito, é um tema que me interessa sim”. 

O estudante Jefferson Leal, também encontrou uma maneira de tornar o conhecimento mais acessível e gerar mais empatia em prol da comunidade LGBTQIA+ usando sua página no instagram @dentistacolorido, para espelhar mais representatividade na odontologia.

 “É muito difícil se assumirem dentro da odontologia, as pessoas ainda têm um certo preconceito, eu vejo isso dentro na universidade. Então, foi uma forma de mostrar isso para todo mundo, a gente está aqui, a gente faz um curso da saúde”.  

“O Brasil é o país mais violento para a população LGBTQIA+, eu fico muito feliz quando vejo alguém querendo falar sobre este tema e levar visibilidade para nossa classe”,

completa Dr. Felipe Cerqueira. 

Já imaginou se o mundo fosse um consultório? Confira o Manifesto da Diversidade, feito pela Dental Speed!

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