Saúde Bucal em Pacientes Gastroplastizados

Saúde Bucal

Saúde Bucal em Pacientes Gastroplastizados

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atualmente há aproximadamente 82 milhões de pessoas com IMC ≥25kg/m2, indicando sobrepeso ou obesidade.

E a estimativa para os próximos anos é ainda mais assustadora, pois, espera-se que em 2025 cerca de 2,5 bilhões de indivíduos adultos estejam com sobrepeso.

Não é à toa que a obesidade é considerada um problema de saúde pública na sociedade contemporânea.

Dentre as formas terapêuticas da obesidade, encontra-se a cirurgia bariátrica, também conhecida como cirurgia de redução do estômago ou gastroplastia, a qual tem se mostrado efetiva na perda de peso e no controle das comorbidades.

No entanto, também envolve consequências negativas que valem a pena serem pontuadas, como deficiências nutricionais, problemas renais, problemas bucais, entre outros.

Doenças e comorbidades relacionadas à obesidade

São diversas as comorbidades associadas à obesidade, onde pacientes nessa condição podem manifestar: 

  • Diabete melito tipo 2; 
  • Hipertensão arterial; 
  • Hiperlipidemia; 
  • Arteriosclerose; 
  • Artrite; 
  • Disfunções endócrinas; 
  • Alguns tipos de cânceres; 
  • Síndrome de apneia do sono; 
  • Doença periodontal; 
  • Falta de habilidade para atividades diárias; 
  • Problemas psicossociais.

Obesidade e problemas bucais

Em relação aos problemas bucais desencadeados pela obesidade, a síndrome de apneia do sono é uma das alterações que afetam a saúde oral, pois a partir dela se desenvolvem vários outros distúrbios. 

Caracterizada pela parada respiratória durante o sono, a apneia acaba promovendo a sensação de boca seca durante esse período.  

Esse cenário, além de provocar aumento de cáries dentárias, torna a mucosa bucal do paciente obeso mais vulnerável às infecções, sendo uma delas a doença periodontal.  

A doença periodontal, por sua vez, é provocada diretamente pela presença de periodontopatógenos, mas também está relacionada à susceptibilidade do hospedeiro.

Vários fatores de risco têm sido associados ao aumento da susceptibilidade à infecção periodontal, como questões genéticas, de gênero, o hábito de fumar e consumir álcool, diabetes, osteoporose, deficiência de cálcio e vitamina D, estresse e obesidade.

Estes contribuem com a patogênese das doenças periodontais por promoverem alterações no fluxo sanguíneo no periodonto, na produção de saliva ou até mesmo interferindo na resposta imune frente aos microrganismos.

A associação entre o aumento de peso e as doenças periodontais tem sido relatada em estudos que identificaram risco de 2 a 5 vezes maior de indivíduos com sobrepeso ou obesos desenvolver periodontite comparado a indivíduos não obesos.

Entretanto, a relação entre a obesidade e as doenças periodontais ainda requer maiores esclarecimentos.

Também vale ressaltar que o perfil mastigatório dos obesos apresentam características próprias com alterações significativas como: alteração de práxis e variáveis de lábios, língua, além de alteração no tamanho de mandíbula.

  • Na avaliação de mastigação habitual – ritmo rápido, movimentação vertical de mandíbula, tamanho grande do bolo, escassez de mastigação e necessidade de líquido durante a mastigação;
  • Na avaliação de mastigações lateralizadas – ausência de corte do alimento, ritmo rápido, movimentação vertical de mandíbula, tamanho grande do bolo e escassez de mastigação.

Efeitos colaterais das gastroplastias

Má absorção de nutrientes

A gastroplastia provoca consequências como a má absorção de macro e micronutrientes.

Isso se dá por conta das alterações nas características anatômicas do trato gastrointestinal, devido ao ato cirúrgico e dieta restritiva adotada posteriormente. 

Os macronutrientes encontrados em níveis deficientes podem incluir proteínas e lipídeos, já os micronutrientes mais frequentemente relacionados às complicações nutricionais são vitamina B12, ferro, cálcio e vitamina D.

Assim, o paciente pode desenvolver deficiências nutricionais como anemia, osteoporose, doença metabólica óssea, hipocalcemia e hiperparatiroidismo secundário.  

A vitamina D é essencial para manter o metabolismo do cálcio em equilíbrio, logo, em caso de deficiência desta substância, a absorção de cálcio é insuficiente para manter as necessidades do corpo. 

Essa alteração pode desenvolver o hiperparatiroidismo secundário, que é o aumento da produção do hormônio da paratireoide, além da retirada do cálcio dos ossos e da reabsorção nos rins para manter seus níveis normais.  Além disso, a deficiência de vitamina D promove hipocalcemia leve, hiperparatireoidismo reacional, gerando perda do osso trabecular e estreitamento do osso cortical, o que aumenta o risco de fraturas.

Refluxo gastroesofágico

Outra consequência frequentemente encontrada em pessoas que se submeteram à gastroplastia é a regurgitação crônica ou refluxo gastroesofágico.

Podendo ser decorrente do diâmetro estreito do anel de silicone e/ou de hipotonia do esfíncter esofágico inferior.

As consequências clínicas deste refluxo atingem a boca, causando desde erosão do esmalte, aftas, ardência bucal, sensibilidade dentária, gosto azedo e menor incidência de lesões cariosas.

Erosão

A erosão dentária é um tipo de lesão não cariosa que se desenvolve com a perda de estrutura dental causada por ação química sem o envolvimento de bactérias.

 Essa alteração pode ter origem intrínseca ou extrínseca, onde:

  • Os fatores causadores extrínsecos são dieta (frutas, bebidas ácidas), meio ambiente (indústrias químicas, piscinas cloradas) e medicamentos (vitamina C, aspirina).
  • Os fatores intrínsecos são doenças que provocam regurgitação do suco gástrico ou diminuição do fluxo salivar.

Xerostomia

A literatura também relata a xerostomia como sintoma após a intervenção bariátrica. A hipossalivação ou boca seca resultante da diminuição do pH salivar pode também ser ocasionada pela ingestão de medicações como ansiolíticos, e na grande maioria dos casos é responsável por cáries recorrentes.

Abordagem Multidisciplinar

Assim, verifica-se que a cirurgia bariátrica está relacionada e causa reflexos em outras partes do corpo humano, não estando restrita a questões estomacais e/ou intestinais.

Tendo fundo psicológico, comportamental, nutricional e até́ mesmo odontológico.

Por estas razões, as abordagens condicionantes nos pacientes bariátricos devem ser multiprofissionais, visando conferir saúde com informação para a gestão desta modalidade de intervenção cirúrgica.

A abordagem coletiva interdisciplinar deve ajudar o paciente não só́ a emagrecer, mas, acima de tudo, restabelecer um melhor padrão de vida promovendo saúde física, mental e psíquica.

É neste contexto que deve se inserir a Odontologia, interligada a outras áreas da saúde e contribuindo para a produção integrada do cuidado ao paciente bariátrico.

Cuidados com a saúde bucal pós-bariátrica

A saúde bucal de pacientes gastroplastizados depende de uma série de mudanças comportamentais, visto que estavam habituados a comer alimentos gordurosos e em grandes quantidades.

Após a operação, com a redução do estômago, há grande mudança nos hábitos alimentares. O paciente passa a alimentar-se em menor quantidade e com maior frequência.

O fato de ter que comer mais vezes durante o dia faz com que haja necessidade de atenção especial com a higienização da boca, para evitar problemas bucais como a cárie dentária.

Nesta situação as bactérias causadoras de doenças da boca encontram condições favoráveis.

Por outro lado, em alguns casos, a mudança da aparência física do paciente pode causar impactos positivos que favorecem os cuidados e a preocupação com a sua dieta e higiene bucal. 

Como a valorização da vida, aumento da sensação de força pessoal, melhoria da relação social e autoestima.

Prescrição de medicamentos e uso de anestésicos

Os anestésicos agem sobre a função renal alterando a autorregulação do fluxo sanguíneo e taxa de filtração glomerular. 

Sendo assim, é importante ter cautela na administração de anestésicos locais em pacientes que tenham rabdomiólise ou insuficiência renal aguda, complicações bem comuns após cirurgia bariátrica. 

Quanto à ocorrência de úlcera gástrica, estudos mostram que a alteração está relacionada aos procedimentos cirúrgicos. Portanto, o cirurgião dentista deve ter cuidado na prescrição de medicamentos para pacientes que passaram por cirurgia bariátrica e, portanto, correm o risco de apresentar úlcera.

O que muda no atendimento odontológico de pacientes gastroplastizados?

É importante que exista um acompanhamento clínico do paciente após a cirurgia bariátrica. Neste caso, o cirurgião-dentista atuará na: 

  • Adequação do meio bucal através de raspagens e polimento dental; 
  • Identificação e tratamento de lesões de cárie; 
  • Orientação sobre higiene bucal; 
  • Esclarecimento ao paciente sobre as alterações bucais decorrentes; 
  • Orientação do paciente quanto à ingestão de líquidos. 

Além disso, devem ser feitas revisões periódicas, em especial durante o período de mudança de dieta (líquida, pastosa, branda) até que ela se normalize. 

Finalmente, podemos concluir que uma série de fatores evidencia as diversas manifestações bucais oriundas da gastroplastia, sendo de grande importância que o cirurgião-dentista tenha conhecimento destas para fornecer os cuidados adequados ao paciente gastroplastizado.

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Referências:

Patrícia Garcia de Moura-Grec, Joselene Martinelli Yamashita, Juliane Avansini Marsicano, Reginaldo Ceneviva, Celso Vieira de Souza Leite, Gilberto Borges de Brito, Sergio Luis Aparecido Brienze, Sílvia Helena de Carvalho Sales-Peres,Impact of bariatric surgery on oral health conditions: 6-months cohort study, International Dental Journal, Volume 64, Issue 3, 2014, Pages 144-149, ISSN 0020-6539, https://doi.org/10.1111/idj.12090.

NISHIYAMA, Sheila Alexandra Belini. Possíveis impactos da cirurgia bariátrica sobre a saúde periodontal de indivíduos obesos. Determinação do perfil microbiológico e imunológico. 2013. Tese (Doutorado em Microbiologia) – Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. doi:10.11606/T.42.2013.tde-26062014-141424. Acesso em: 2022-09-23.

AVALIAÇÃO bucal de pacientes antes e após a cirurgia bariátrica. Brazilian Journal of Health Review, [s. l.], p. 15030 -15046, 1 ago. 2021. Disponível em: https://brazilianjournals.com/ojs/index.php/BJHR/article/view/32787/pdf. Acesso em: 21 set. 2022.

MORAES, Aline Bellote de; GASPARETTO, André; LOLLI, Maria Carolina Gobbi dos Santos; LOLLI, Luiz Fernando..Cirurgia bariátrica e fatores relacionados à saúde bucal. Brazilian Journal of Sugery and Clinical Research. Paraná, v.5, n.1, p. 05-13, Dez 2013- Fev 2014. Disponível em: https://www.mastereditora.com.br/periodico/20131130_151948.pdf.

Moura-Grec, Patrícia Garcia et al. Consequências sistêmicas da cirurgia bariátrica e suas repercussões na saúde bucal. ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo) [online]. 2012, v. 25, n. 3 [Acessado 23 Setembro 2022] , pp. 173-177. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0102-67202012000300008>. Epub 06 Fev 2013. ISSN 2317-6326. https://doi.org/10.1590/S0102-67202012000300008.

Texto original escrito por Dra. Juliana Lemes (CRORJ: 34374) em 18 de abril de 2015 e reescrito por Dra. Natália Galvão Garcia (CROMG: 56425) em 26 de setembro de 2022.

Cirurgiã-dentista pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), Mestre, Doutora e Pós-Doutora pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), Professora Dra. do curso de Odontologia do Centro Universitário de Lavras (UNILAVRAS – MG). Atua no consultório nas áreas de Diagnóstico Oral, Cirurgia Oral Menor, Pacientes Especiais e Laserterapia. CROMG: 56425
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