A xerostomia é um sintoma caracterizado pela sensação de boca seca. A condição pode ou não estar relacionada à diminuição (hipossalivação) ou ausência da produção de saliva (assialia) e está entre as queixas mais frequentes relacionadas ao desconforto bucal na prática odontológica, principalmente em idosos, pois estima-se que afeta cerca de 20% dessa população.
Embora pareça um incômodo simples à primeira vista, ela pode afetar a mastigação, a fala, a deglutição e aumentar o risco de cáries, infecções e outras alterações que comprometem a saúde bucal e a qualidade de vida do paciente.
Por isso, reconhecer precocemente a xerostomia na odontologia faz toda a diferença: quanto antes a causa for identificada, maiores são as chances de controlar os sintomas, prevenir complicações e oferecer um tratamento mais eficaz. Saiba mais neste artigo.
O que é xerostomia?
Xerostomia é a sensação subjetiva de boca seca relatada pelo próprio paciente. No entanto, ela nem sempre está associada à hipossalivação, ou seja, à redução da produção de saliva.
Algumas pessoas sentem a boca seca mesmo tendo saliva normal. Outras, no entanto, realmente têm redução da produção de saliva confirmada por exames, mas relatam poucos sintomas ou nenhum desconforto.
Na prática clínica, isso significa que a queixa de xerostomia deve ser investigada com atenção. Uma anamnese cuidadosa é fundamental para identificar a causa e definir o tratamento mais adequado.
Qual a função da saliva na saúde bucal?
A saliva exerce um papel essencial na saúde bucal e vai muito além da lubrificação. Ela participa de praticamente todas as funções do sistema estomatognático, responsável pelas atividades da cavidade oral.
Abaixo, listamos algumas das suas principais funções:
- Lubrificar os tecidos moles da boca, tornando mais fácil a mastigação e a deglutição.
- Auxiliar na mastigação dos alimentos.
- Facilitar a deglutição, tornando mais fácil engolir os alimentos.
- Suportar a articulação da fala, ajudando a formar as palavras e a pronunciar os sons corretamente.
- Remineralizar o esmalte dentário, ajudando a prevenir a formação de cáries e a manter os dentes fortes.
- Controlar o pH bucal, ajudando a manter o equilíbrio da microbiota oral.
- Exercer uma ação antimicrobiana natural, ajudando a prevenir infecções e a manter a boca saudável.
- Iniciar a digestão de carboidratos por meio de enzimas e facilitar a formação do bolo alimentar.
- Proteger a mucosa oral, ajudando a prevenir lesões e desconfortos.
- Ajudar a reter e estabilizar próteses dentárias, garantindo que elas fiquem no lugar correto.
Quando o fluxo salivar fica reduzido, todas essas funções ficam comprometidas. Isso, por sua vez, pode deixar o paciente mais suscetível a infecções, lesões e desconfortos no dia a dia.

Qual a diferença entre xerostomia e hipossalivação?
Muitas pessoas acham que esses termos são sinônimos, mas na verdade eles não significam a mesma coisa. Vamos entender as diferenças:
| Xerostomia | Hipossalivação |
|---|---|
| Sensação subjetiva de boca seca relatada pelo paciente. | Redução real da produção ou fluxo de saliva. |
| Pode ocorrer com fluxo salivar normal ou reduzido. | Confirmado por exames, como a sialometria. |
| Diagnóstico clínico, baseado na queixa do paciente. | Pode estar presente com ou sem queixa do paciente. |
| Classificada como sintoma. | Considerada um achado clínico. |
Quais são as principais causas da xerostomia?
As principais causas da xerostomia são bastante variadas e podem ser influenciadas por hábitos comportamentais e condições sistêmicas complexas. Vamos olhar para as mais importantes:
Uso de medicamentos
O uso de medicamentos é uma das causas mais comuns da xerostomia. Alguns tipos de medicamentos que podem causar boca seca incluem:
- Antidepressivos;
- Anti-hipertensivos;
- Anti-histamínicos;
- Ansiolíticos;
- Diuréticos;
- Anticolinérgicos;
- Opioides;
- Relaxantes musculares.
Quando uma pessoa toma muitos medicamentos (polifarmácia), como no caso de pacientes com diversas condições de saúde, o risco de desenvolver xerostomia aumenta muito.
Isso acontece porque o efeito de cada medicamento pode ser somado, aumentando a probabilidade de boca seca.
Radioterapia em cabeça e pescoço
Pacientes submetidos à radioterapia na região de cabeça e pescoço podem sofrer dano direto às glândulas salivares, com redução permanente do fluxo.
Essa condição eleva significativamente o risco de cárie de radiação, exigindo protocolo preventivo rigoroso e acompanhamento odontológico contínuo.
Síndrome de Sjögren
A síndrome de Sjögren é uma doença autoimune que provoca danos progressivos nas glândulas que produzem saliva e lágrimas, o que leva a uma sensação de boca seca persistente.
Essa condição pode ser difícil de lidar e requer atenção especializada. Nesse caso, o diagnóstico multidisciplinar é fundamental e envolve reumatologista, oftalmologista e cirurgião-dentista.
Diabetes mellitus
O diabetes mellitus também pode causar boca seca. Isso acontece por vários motivos, como a desidratação secundária à poliúria (produção excessiva de urina) e alterações metabólicas.
Envelhecimento
Existe um mito importante que precisa ser desfeito: o envelhecimento, por si só, não causa xerostomia.
O que ocorre é que o paciente idoso está mais exposto a fatores de risco, principalmente ao uso contínuo de medicamentos e à presença de doenças sistêmicas, que juntos elevam a prevalência da condição nessa fase da vida.
Outras causas
Também merecem atenção:
- Ansiedade e estresse;
- Respiração bucal;
- Tabagismo;
- Consumo de álcool;
- Desidratação;
- Quimioterapia;
- Doenças neurológicas.
Quais são os sintomas da xerostomia?
Os sinais da xerostomia podem variar de intensidade e nem sempre aparecem todos ao mesmo tempo.
Enquanto alguns pacientes relatam apenas um leve desconforto, outros apresentam dificuldades que interferem diretamente na alimentação, na fala e até no uso de próteses dentárias.
Conhecer esses sinais facilita a identificação precoce da condição. São eles:
- Sensação persistente de boca seca;
- Saliva espessa ou pegajosa;
- Dificuldade para mastigar e engolir alimentos;
- Dificuldade para falar por longos períodos;
- Sensação de língua aderindo ao palato;
- Ardência ou queimação na boca;
- Fissuras nos lábios e nos cantos da boca;
- Alteração do paladar;
- Halitose;
- Sede frequente;
- Dificuldade de adaptação e retenção de próteses dentárias.
Como diagnosticar a xerostomia na odontologia?
O diagnóstico da xerostomia vai muito além de confirmar a sensação de boca seca. O objetivo é identificar a causa do problema e avaliar se ela está relacionada à redução do fluxo salivar ou a outras alterações que afetam a cavidade oral.
Para isso, o cirurgião-dentista segue uma investigação clínica organizada, que inclui:
Anamnese
Primeiro, é feita uma anamnese. É como uma conversa para entender melhor o que está acontecendo.
O profissional pergunta sobre os medicamentos que o paciente está tomando, se tem alguma doença, se já fez radioterapia na cabeça ou pescoço, e quando os sintomas surgiram.
Também é importante saber como os sintomas ocorrem na rotina do paciente e se a boca seca é o tempo todo ou apenas em alguns momentos do dia.
Exame clínico
Depois, é feito o exame clínico. É como um check-up para confirmar as suspeitas.
Nessa etapa, o cirurgião-dentista pode encontrar sinais como ausência de saliva, mucosa seca, saliva espessa, língua com fissuras e dificuldade de formação do filme salivar.
Em alguns casos, o espelho clínico chega a aderir à mucosa durante o exame.
Avaliação do fluxo salivar
Quando há suspeita de hipossalivação, é feito um exame chamado sialometria, que mede a quantidade de saliva produzida.
Isso ajuda a entender se a boca seca é apenas uma sensação ou se a saliva realmente está sendo produzida em menor quantidade.
Exames complementares
Em alguns casos, é necessário fazer exames adicionais, como testes de laboratório ou exames de imagem das glândulas salivares. Isso ajuda a entender melhor o que está acontecendo e a definir o melhor tratamento.
De modo geral, a investigação segue uma sequência lógica: anamnese ➡️ exame clínico ➡️ sialometria ➡️ exames complementares ➡️ definição do tratamento, o que significa que o diagnóstico da xerostomia nem sempre é concluído na primeira consulta.
Em resumo, o passo a passo para diagnóstico da xerostomia é:
| Etapa | Objetivo | O que avalia |
|---|---|---|
| Anamnese | Identificar possíveis causas. | Histórico de saúde e sintomas. |
| Exame clínico | Verificar sinais da xerostomia. | Mucosa, saliva e língua. |
| Sialometria | Medir o fluxo salivar. | Quantidade de saliva produzida. |
| Exames complementares | Confirmar o diagnóstico. | Exames laboratoriais e de imagem. |
| Tratamento | Definir a conduta. | Baseado nos resultados da avaliação. |
Quais complicações a xerostomia pode causar?
Como a saliva é essencial para a proteção da cavidade oral, sua redução pode desencadear diversos problemas que afetam a saúde bucal e a qualidade de vida:
- Cáries, especialmente radiculares: a redução da ação protetora da saliva aumenta o risco de desmineralização do esmalte e de lesões em áreas expostas da raiz.
- Doença periodontal: o desequilíbrio da microbiota oral pode contribuir para inflamação gengival e favorecer a progressão da doença periodontal em pacientes suscetíveis.
- Candidíase oral recorrente: a menor ação antimicrobiana da saliva facilita a proliferação de fungos, causando placas esbranquiçadas, ardência e desconforto.
- Mucosite e ulcerações: a mucosa torna-se mais sensível e vulnerável a irritações, traumas e lesões dolorosas.
- Halitose persistente: a diminuição da saliva favorece o acúmulo de resíduos e o crescimento de microrganismos associados ao mau hálito.
- Dificuldade com próteses: a falta de lubrificação compromete a retenção e o conforto durante o uso de próteses dentárias.
- Disfagia e alterações alimentares: mastigar e engolir torna-se mais difícil, especialmente alimentos secos.
- Risco de desnutrição: em casos mais graves, a limitação alimentar pode reduzir a ingestão adequada de nutrientes.
- Impacto na qualidade de vida: dor, desconforto, alterações no paladar e dificuldades na fala podem afetar o bem-estar, o convívio social e a autoestima do paciente.
Como tratar a xerostomia?
O tratamento da xerostomia deve ser feito de forma personalizada, sempre que possível, considerando a causa principal do problema.
Identificar e tratar a causa
É importante rever os medicamentos que o paciente está tomando com o médico responsável, controlar doenças associadas e, se necessário, encaminhar para outras especialidades.
Sugerir recursos para aumentar o fluxo salivar
Algumas estratégias simples ajudam a estimular a produção de saliva:
- Mascar chicletes sem açúcar;
- Usar gomas com xilitol;
- Comer alimentos que estimulam a salivação;
- Beber água ao longo do dia;
- Usar substitutos salivares, como saliva artificial, sprays específicos, géis e enxaguatórios formulados para lubrificação da mucosa.
Usar medicamentos sialogogos
Em alguns casos, o médico pode prescrever medicamentos que estimulem a saliva, como pilocarpina e cevimelina.
Esses fármacos possuem contraindicações relevantes e exigem avaliação médica criteriosa antes da indicação.
Reforçar os cuidados clínicos no consultório
No consultório odontológico, o plano de tratamento inclui:
- Aplicação de dentifrícios de alta concentração de flúor como enxaguatórios fluoretados, cremes, vernizes ou géis dentais, quando indicados, para recuperar os minerais do esmalte dentário, fortalecendo dentes que ficaram mais suscetíveis ao desgaste devido à diminuição do fluxo salivar.
- Controle rigoroso do biofilme dental por meio da escovação e uso de antissépticos, como a clorexidina.
- Sugerir ao paciente retornos periódicos mais frequentes para limpeza dental e remoção de tártaro, reforçando as estratégias de prevenção de cáries.
Como prevenir complicações em pacientes com xerostomia?
Um plano de cuidados domiciliares é essencial para reduzir o risco de complicações. Entre as principais orientações estão:
- Beber água com frequência durante o dia;
- Evitar bebidas alcoólicas;
- Evitar o uso de tabaco;
- Reduzir o consumo de cafeína;
- Evitar alimentos muito salgados;
- Evitar alimentos muito ácidos;
- Utilizar flúor conforme orientação profissional;
- Manter acompanhamento odontológico regular;
- Adotar controle dietético adequado.
Quando encaminhar o paciente para avaliação médica?
Aqui estão alguns motivos importantes para considerar:
- Suspeita de síndrome de Sjögren;
- Diabetes não controlada;
- Presença de outras doenças autoimunes;
- Alterações sistêmicas relevantes identificadas na anamnese;
- Xerostomia persistente sem causa odontológica definida.
Conclusão
A xerostomia é um sintoma frequente na rotina clínica e exige atenção redobrada do cirurgião-dentista, já que seu diagnóstico precoce reduz consideravelmente o risco de complicações bucais associadas e melhora a qualidade de vida do paciente.
O tratamento deve ser sempre individualizado e, quando necessário, conduzido em conjunto com outros profissionais de saúde, reforçando a importância de uma abordagem multidisciplinar.
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FAQ: As principais dúvidas sobre xerostomia respondidas por especialistas
Xerostomia e boca seca são a mesma coisa?
Na prática clínica, sim. Xerostomia é o termo técnico utilizado para a sensação de boca seca relatada pelo paciente. No entanto, é importante diferenciar xerostomia de hipossalivação. Nem toda pessoa com xerostomia apresenta redução do fluxo salivar, e nem toda pessoa com hipossalivação percebe a sensação de boca seca.
Xerostomia tem cura?
Depende da causa. Quando associada a um medicamento ajustável, pode haver melhora significativa. Já em condições crônicas, como a síndrome de Sjögren, o foco é o controle dos sintomas e a prevenção de complicações.
Todo paciente com boca seca produz pouca saliva?
Não. A xerostomia pode ocorrer mesmo com fluxo salivar normal, sendo necessário avaliar cada caso individualmente por meio da sialometria.
Quais medicamentos causam xerostomia?
Antidepressivos, anti-hipertensivos, anti-histamínicos, ansiolíticos, diuréticos, anticolinérgicos, opioides e relaxantes musculares estão entre as classes mais associadas à boca seca.
Xerostomia aumenta o risco de cárie?
Sim. A redução da saliva compromete a remineralização do esmalte e o controle do pH bucal, favorecendo o surgimento de cáries, inclusive as radiculares.
Qual exame mede a produção de saliva?
A sialometria, realizada em repouso ou de forma estimulada, é o exame indicado para quantificar o fluxo salivar.
Pacientes irradiados sempre desenvolvem xerostomia?
Não necessariamente. A radioterapia em cabeça e pescoço aumenta o risco de danos às glândulas salivares, mas a intensidade da xerostomia depende da dose aplicada, da área irradiada e das glândulas afetadas.
Existe saliva artificial?
Sim. Há substitutos salivares disponíveis em géis, sprays e enxaguatórios desenvolvidos para lubrificar a mucosa bucal de pacientes com hipossalivação.
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