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Lesões na língua: Diagnóstico e tratamento

A língua é um órgão muscular que pode dizer muito sobre a saúde do paciente. Situada na cavidade bucal e na faringe, a língua é responsável pelo paladar, auxilia na mastigação, deglutição e fonação.

Anatomicamente o ventre apresenta superfície lisa, enquanto a superfície dorsal é irregular recoberta por uma grande quantidade de papilas, as quais podem ser classificadas como: filiformes, fungiformes, circunvaladas e foliadas. No terço mais posterior do dorso são encontrados agregados de tecido linfoide, os nódulos e as tonsilas.

A língua também possui inúmeras terminações nervosas, o que a torna mais sensível quando comparada à outras partes do corpo. Em padrão de normalidade, apresenta coloração rosada e textura homogênea.

No entanto, há uma variedade de patologias que podem acometer e comprometer o padrão de normalidade da língua, gerando diferentes tipos de lesões.

Neste artigo, vamos abordar os principais tipos de lesões na língua, características clínicas para realizar o diagnóstico e abordar sobre como realizar o tratamento.

Lesões infecciosas na língua

Um grande número de doenças infecciosas pode acometer a língua. Dentre elas, a candidíase oral, uma infecção fúngica que pode se apresentar em diversas formas, sendo as mais comuns a candidíase oral pseudomembranosa, que se manifesta por meio de placas brancas raspáveis e a candidíase oral eritematosa ,popularmente conhecida como “língua careca” devido à atrofia das papilas

A candidíase oral ocorre frequentemente em pacientes imunocomprometidos, com comorbidades, transplantados e que utilizam medicamentos de uso prolongogado, como por exemplo corticoide e antibióticos.

Infecções sexualmente transmissíveis como a sífilis e o herpes também podem acometer a língua, apresentando-se como lesões bolhosas ou ulceradas.

O vírus Epstein Barr pode vir a causar uma condição atípica conhecida como leucoplasia pilosa, a qual consiste em placas brancas de aspecto piloso nas bordas laterais da língua.

Neste caso, o tratamento das lesões causadas por agentes infecciosos irá depender da identificação do fator etiológico, assim como de exames complementares como, exames sorológicos, citologia esfoliativa ou biópsia.

Após identificado o agente infeccioso o quadro deve ser tratado com o medicamento específico para cada caso.

Lesões autoimunes na língua

Dentre as lesões autoimunes, a ulceração aftosa recorrente é a mais comum, apresentando-se como úlceras arredondas, de halo eritematoso, extremamente dolorosas que preferencialmente acometem o ventre e a borda lateral da língua.

O tratamento dessas lesões aftosas envolve uso de corticosteroides e laserterapia de baixa intensidade.

Lesões traumáticas na língua

Traumatismos locais são bastante frequentes, assim como injúrias causadas por restaurações ou próteses mal adaptadas, podendo causar o aparecimento de úlceras traumáticas ou crescimentos teciduais reacionais, como a hiperplasia fibrosa inflamatória e o granuloma  piogênico.

Nesses casos, as úlceras traumáticas são tratadas de forma semelhante às ulcerações aftosas recorrentes, enquanto os crescimentos teciduais devem ser removidos cirurgicamente.

Lesões neoplásticas na língua

Lesões neoplásicas sejam elas benignas ou malignas também podem acometer a língua. Devido às diversas terminações nervosas, algumas neoplasias de origem neural podem se desenvolver, principalmente no dorso da língua, como por exemplo o tumor de células granulares, o neurofibroma e o schwannoma.

Dentre as neoplasias malignas, o carcinoma espinocelular (câncer de boca) é o tipo mais comum que acomete a língua. Podendo apresentar-se clinicamente como lesões tumorais, exofíticas, de coloração eritematosa ou leucoplásica. Ou ainda na forma de úlceras, na maioria das vezes indolores, de bordas elevadas e margens endurecidas.

Logo, os tumores benignos devem ser removidos cirurgicamente com uma margem de segurança pequena. Em contrapartida, os tumores malignos devem ser encaminhados para serem removidos em ambiente hospitalar, por um cirurgião de cabeça e pescoço, com uma margem de segurança mais extensa.

Ao abordar sobre neoplasia em língua, é importante descrever duas lesões, que apesar de benignas, apresentam potencial de malignização: leucoplasia e eritroplasia.

A leucoplasia é uma lesão branca e não removível à raspagem, que geralmente acomete borda e dorso de língua. Seu tratamento é a remoção de fatores de risco, acompanhamento do paciente e se necessário, realizar a excisão cirúrgica.

Já a eritroplasia é uma lesão vermelha, de aspecto liso ou aveludado, bem delimitada e superfície plana ou ligeiramente elevada e se confirmado o diagnóstico na biópsia, o tratamento indicado é a excisão cirúrgica.

TipoLesõesCaracterísticas clínicas
Lesões infecciosasCandidíase
Sífilis e herpes
Epstein Barr
Pseudomembranosa: placas brancas raspáveis
Eritematosa: superfície lisa e eritematosa – língua careca
Lesões bolhosas e/ou ulceradas
Leucoplasia pilosa: placas brancas de aspecto piloso nas bordas laterais
Lesões autoimunesUlceração aftosa recorrenteÚlceras dolorosas, arredondas e de halo eritematoso
Lesões traumáticasÚlcera traumática
Hiperplasia fibrosa inflamatória
Granuloma Piogênico
Lesão ulcerada associada à trauma
Lesão nodular, de consciência fibrosa, coloração normocorada e assintomática
Lesão nodular, de coloração eritematosa, superfície com áreas de ulceração e sangrante ao toque
Lesões neoplásicasTumor de células granulares
Neurofibroma
Schwannoma
Carcinoma espinocelular
Lesões tumorais, de consistência firma, encapsuladas e de coloração normocorada
Lesões tumorais, exofíticas, de coloração eritematosa ou leucolásica
Úlceras indolores, de bordas elevadas e margens endurecidas

Outros tipos de lesões na língua

Além de todas essas patologias, também podem ser observadas condições benignas não patológicas que se enquadram no grupo das variações da normalidade.

São elas: glossite migratória benigna, também chamada de eritema migratório ou língua geográfica, língua saburrosa, língua pilosa e língua fissurada.

A língua geográfica é um quadro que se manifesta-se como áreas de erosão, de coloração eritematosa, margens esbranquiçadas, apresentando períodos de remissão espontânea, sendo relacionada à predisposição genética, doenças sistêmicas, stress e deficiência de vitaminas.

A língua saburrosa caracteriza-se pelo acúmulo de queratina, bactérias e restos de alimentos nas papilas filiformes no dorso da língua, o que confere uma aparência espessada de coloração branca.

Assim como a língua saburrosa, a língua pilosa é causada pela higienização deficiente. Geralmente é associada a fatores predisponentes como tabagismo, conferindo um aspecto semelhante a “pelos” de coloração acastanhada ou enegrecida no dorso da língua.

A língua fissurada apresenta sulcos profundos localizados no dorso e na borda lateral dificultando a higienização. Na maioria das vezes, essas variações da normalidade envolvem tratamentos simples, como raspagem e higienização local, ou ainda, em alguns casos, não requerem tratamento.

Variação da normalidadeCaracterísticas clínicas
Língua GeográficaÁreas de erosão (perda de papilas), de coloração eritematosa e margens esbranquiçadas
Língua SaburrosaAcúmulo de queratina, bactérias e restos de alimentos nas papilas filiformes, conferindo uma aparência espessada de coloração branca
Língua PilosaAssociada à fatores predisponentes como tabagismo, confere aspecto “semelhante á pelos” de coloração acastanhada ou enegrecida no dorso da língua
Língua FissuradaSulcos profundos localizados no dorso e na borda lateral

Manifestações na língua associadas a doenças sistêmicas

Além dessas lesões e variações da normalidade que podem acometer a língua, esta também pode apresentar sinais e sintomas relacionados a doenças sistêmicas, como é o caso de deficiências nutricionais, doenças gastrointestinais, dentre outras.

Na anemia, causada pela deficiência de vitamina B12 ou de ferro, pode ser observada uma língua atrófica, pálida e de superfície lisa.

A deficiência de niacina (vitamina B3) também provoca alterações semelhantes, no entanto com uma coloração mais avermelhada. Essa superfície lisa causada pela atrofia das papilas pode ser observada ainda, em indivíduos portadores de doença celíaca.

Já algumas outras doenças gastrointestinais como a gastrite, a esofagite e distúrbios alimentares como a bulimia tendem a provocar o aparecimento de uma coloração branca amarelada.

ManifestaçãoCaracterísticas clínicas
AnemiaLíngua atrófica, pálida e de superfície lisa
Deficiência de NiacinaLíngua atrófica, eritematosa e de superfície lisa
Doença celíacaLíngua despapilada, atrófica e de superfície lisa
Gastrite
Esofagite
Bulimia
Língua de aparência mais espessada e coloração branca amarelada

Sendo assim, diante dessas manifestações sistêmicas, o cirurgião-dentista pode solicitar exames complementares que auxiliem no estabelecimento do diagnóstico. Com isso, posteriormente, encaminhar o paciente a um médico para que seja feito o tratamento da doença.

O diagnóstico das lesões em língua envolve uma anamnese detalhada, exame clínico para analisar as características das lesões e, quando necessário, solicitar exames laboratoriais realizar biópsia.

É importante o dentista avaliar a história médica do paciente, uso de medicamentos e hábitos que possam predispor o paciente ao surgimento das lesões.

Ao realizar o exame clínico, o dentista deve observar cuidadosamente a língua, identificando a localização, tamanho, forma, cor e textura da lesão.

Além disso, o acompanhamento clínico é de extrema importância para monitorar a resposta ao tratamento e evitar a recorrência da lesão.

As lesões de língua apresentam grande variedade de características clínicas, sendo fundamental para o sucesso do caso clínico a identificação de sinais, sintomas, causas e fatores de risco.

É importante lembrar para realizar o diagnóstico e tratamento das lesões em língua, é importante o dentista realizar uma anamnese detalhada, exame clínico minucioso e, em alguns casos, realizar exames laboratoriais e biópsia.

O acompanhamento do paciente deve ser realizado para acompanhar a estabilidade do caso clínico e a prevenção de recidivas.

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Publicado por
Profª Dra. Natália Galvão Garcia

Cirurgiã-dentista pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), Mestre, Doutora e Pós-Doutora pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), Professora Dra. do curso de Odontologia do Centro Universitário de Lavras (UNILAVRAS – MG). Atua no consultório nas áreas de Diagnóstico Oral, Cirurgia Oral Menor, Pacientes Especiais e Laserterapia. CROMG: 56425

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