O acesso endodôntico tradicional consiste em caminhos em linha reta em direção aos canais radiculares, afim de aumentar a eficácia do preparo e evitar erros durante o procedimento. No entanto, uma preocupação em relação ao acesso tradicional, é a quantidade de estrutura dentária removida, o que poderia reduzir a resistência à fratura do elemento dental.

Como alternativa a essa abordagem tradicional, os acessos minimamente invasivos foram descritos, enfatizando a importância da preservação da estrutura dentária para proporcionar aumento da resistência mecânica em dentes submetidos ao tratamento endodôntico.  

Entre os tipos de acessos endodônticos minimamente invasivos podemos citar o acesso conversador, o acesso ultraconservador e o acesso direcionado. 

  • O acesso conservador tem como objetivo diminuir a remoção da estrutura dental, preservando parte do teto da câmara pulpar e da dentina pericervical.
  • O acesso ultraconservador é também conhecido como “acesso ninja” e consiste em realizar a abertura coronária de forma pontual, utilizando pontas diamantadas de pequeno calibre, sem que o acesso seja estendido e se restrinja apenas a essa pequena abertura.
  • Já o acesso direcionado, também chamado de truss access, consiste em realizar cavidades separadas afim de acessar os canais de forma individualizada.

Por exemplo, em um molar inferior é realizada uma cavidade mesial e uma cavidade distal, obtendo dessa forma, duas cavidades menores na face oclusal, enquanto em uma abertura convencional, seria realizada apenas uma cavidade maior, no centro da face. 

 

Acesso à câmara pulpar 

O acesso tradicional proporciona um melhor campo de visão da câmara pulpar, o que facilita as etapas do preparo químico-mecânico do sistema de canais radiculares. Nesse tipo de acesso, o teto da câmara pulpar é removido por completo, com o intuito de localizar todas as entradas dos canais, permitir um acesso direto e diminuir a curvatura dos instrumentos. Já para o acesso minimamente invasivo é realizado o mínimo desgaste de dentina possível, deixando uma forma de funil invertido, preservando a dentina pericervical e o teto da câmara pulpar.  

O acesso minimamente invasivo pode prejudicar na localização, instrumentação e obturação dos canais radiculares. Para a realização da odontometria, só é possível a inserção de apenas uma lima de cada vez, assim como na obturação, sendo possível utilizar apenas um cone obturador por vez. No acesso direcionado, onde permanece uma faixa de dentina entre os orifícios de acesso, pode acabar acumulando bactérias e restos pulpares em razão da limitação de visualização e instrumentação, podendo provocar o insucesso no tratamento endodôntico.  

 

Trunatomy Dentsply

Localização dos canais radiculares  

Em molares superiores permanentes, o achatamento mésio-distal da raiz mésio-vestibular pode favorecer o aparecimento do segundo canal mésio-vestibular (MV2). O acesso endodôntico tradicional promove uma visão adequada aos canais, facilitando a instrumentação. Por outro lado, o acesso minimamente invasivo tende a dificultar a localização dos canais em raízes mésio-vestibulares. 

A radiografia periapical, por apresentar uma imagem bidimensional, oferece limitações para a identificação de canais radiculares. Logo, o profissional pode utilizar métodos auxiliares, como lupas, microscópio operatórioaparelhos de ultrassom e tomografia computadorizada para contribuir na localização de canais atrésicos e no diagnóstico endodôntico.  

Mecanismos auxiliares no acesso endodôntico minimamente invasivo 

Pela dificuldade de visualização e localização dos canais em acessos minimamente invasivos, estudos sugerem a utilização de microscopia. A tomografia computadorizada de feixe cônico também é uma aliada, tanto para diagnóstico, quanto para o planejamento dos tratamentos endodônticos. Assim é possível analisar tridimensionalmente a anatomia do dente.  

Insertos ultrassônicos auxiliam na remoção de calcificações na entrada dos canais radiculares, facilitando sua localização. Podem ser utilizados para agitar e potencializar a solução irrigadora, além de ajudar na remoção de instrumentos fraturados no interior dos canais.  

 

Resistência mecânica a fraturas  

Independentemente da forma de acesso nos dentes tratados endodonticamente, ocorre uma diminuição da resistência coronária, pelo desgaste de esmalte e dentina. Baseado nisso, pesquisas começaram a ser feitas, comparando a resistência de dentes com acesso tradicional e com acesso minimamente invasivo.  

Em primeiros molares superiores, os resultados mostraram que não houve diferença estatisticamente significativa para a resistência mecânica em dentes com acesso tradicional e acesso minimamente invasivo.  

Em relação a pré-molares e molares inferiores, alguns estudos não mostraram diferença estatística entre as duas formas de acesso. Já outros, encontraram maior resistência à fratura em dentes com acesso minimamente invasivo, quando comparados ao acesso tradicional. Mas as metodologias desses estudos foram realizadas de formas diferentes, o que poderia explicar a diferença obtida nos resultados.  

 

Considerações finais 

Em síntese, optar pelo acesso minimamente invasivo pode influenciar no sucesso do tratamento endodôntico, visto que suas formas de preparo podem influenciar na localização de canais, principalmente o MV2 em molares superiores e na instrumentação dos canais radiculares. Vale ressaltar a importância de meios auxiliares para aprimorar o acesso e a terapêutica endodôntica de uma forma geral.

Uma vez que poucos estudos comprovam o aumento da resistência à fratura de dente com acesso minimamente invasivo, é necessário que mais pesquisas sejam desenvolvidas para avaliar como essa nova forma de acesso pode afetar no sucesso clínico a longo prazo. 

 

Assinatura Dra. Bianca

 

 

Referências: 
ROVER, G. et. al. Influence of Access Cavity Design on Root Canal Detection, Instrumentation Efficacyand Fracture Resistance Assessed in Maxillary MolarsJournal of Endodontics, New York, v. 43, n. 10, p. 1657-1662, 2017. 
SILVA, P. A. C. e SILVA, I. S. N. Acesso endodôntico minimamente invasivo: revisão de literatura. SALUSVITA, Bauru, v. 38, n. 1, p. 195-212, 2019. 

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