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Como identificar patologias sistêmicas através de manifestações orais

A cavidade oral é uma janela privilegiada para o diagnóstico precoce de doenças. Muitos sinais e sintomas de patologias podem surgir primeiro na boca, tornando o dentista uma peça importante no cuidado integral do paciente.

Neste guia, você vai conferir as principais manifestações orais de doenças sistêmicas que podem ser detectadas em exames bucais.

De leucemia e anemia a diabete mellitus e lúpus, conheça as principais características, qual a abordagem adequada e quando encaminhar para exames complementares e especialistas.

O que são manifestações orais de doenças sistêmicas?

Manifestações orais de doenças sistêmicas são alterações observadas na mucosa, gengiva, língua, dentes ou ossos maxilares decorrentes de patologias que afetam outros órgãos ou sistemas do corpo.

Geralmente, essas manifestações:

  • surgem antes dos sintomas clássicos;
  • podem ser confundidas com lesões de origem local;
  • exigem conhecimento técnico para serem diagnosticadas.

A relação entre saúde bucal e saúde sistêmica

A cavidade oral é um “espelho” da saúde sistêmica. Em muitos casos, lesões bucais aparecem antes dos sintomas sistêmicos de uma doença, permitindo ao cirurgião-dentista atuar de forma preventiva e colaborativa com outras especialidades.

É importante que o profissional reconheça os sinais bucais associados a condições, como diabete, doenças autoimunes, distúrbios hematológicos, infecções sistêmicas e deficiências nutricionais, entre outras.

Só assim, será possível diagnosticar e tratar eventuais problemas na região, bem como orientar o paciente a buscar um tratamento com um especialista.

Principais doenças sistêmicas que se manifestam na cavidade oral

Existem vários tipos de patologias que se manifestam a partir de alterações na cavidade bucal. A seguir, listamos as mais frequentes, seus sinais e sintomas e como fazer o diagnóstico adequado.

Doenças Hematológicas

As doenças hematológicas são aquelas que afetam a produção do sangue e seus componentes. Entre elas estão a leucemia, anemia e deficiências vitamínicas.

Leucemia

A leucemia é uma patologia maligna originada a partir de mutações na célula-tronco que provoca a produção acelerada e desenfreada de leucócitos, dando origem a uma célula cancerígena.

As manifestações clínicas variam conforme a classificação da doença, mas geralmente são observados:

  • sangramento gengival;
  • gengiva edemaciada;
  • úlceras orais;
  • petéquias;
  • e hiperplasia.

Em alguns casos, também podem ser encontrados:

  • cloroma (sarcoma granulócito);
  • periodontite aguda;
  • síndrome de Sweet;
  • síndrome do queixo entorpecido;
  • candidíase
  • e herpes oral.

Diagnóstico diferencial: lesões que não respondem ao tratamento periodontal convencional devem levantar suspeita do cirurgião-dentista.

Além disso, a solicitação de um hemograma pode mostrar alterações na série branca, vermelha ou plaquetas, sinais de alerta para uma condição hematológica, o que exige encaminhamento imediato ao médico especialista.

Anemia e deficiências vitamínicas

A anemia é uma doença caracterizada pela redução do conteúdo de hemoglobina no sangue abaixo dos níveis normais, resultando em oxigenação insuficiente dos tecidos.

As alterações orais mais frequentemente observadas são:

  • palidez de mucosa;
  • doença periodontal,
  • atresia papilar lingual
  • e pigmentação dentária.

Para deficiências vitamínicas específicas:

  • Vitamina D: amelogênese imperfeita, dentogênese imperfeita, redução da densidade mineral óssea da mandíbula e maior suscetibilidade à cárie e gengivite.
  • B2 (Riboflavina): estomatite aftosa recorrente, glossite, queilite angular e hipomineralização do esmalte.
  • B9 (Ácido Fólico): gengivite com gengivas edemaciadas e sangrantes, queilite angular e glossite.
  • B12 (Cobalamina): palidez da mucosa, glossite esfoliativa (glossite de Moeller-Hunter), xerostomia e alterações do paladar.
  • Vitamina C: gengivite hiperplásica com sangramento, periodontite, petéquias gengivais, cicatrização deficiente e maior suscetibilidade a infecções orais.

Vale destacar que essas manifestações orais podem aparecer antes de alterações no hemograma, reforçando a importância do exame clínico oral para o diagnóstico precoce.

Leia também: Gengivite necrosante: o que dentistas precisam saber

Doenças Endócrinas

As doenças endócrinas são condições médicas que afetam as glândulas endócrinas, responsáveis pela produção e regulação de hormônios no corpo humano. A diabete é uma das mais frequentes.

Diabetes

O diabetes mellitus é uma doença metabólica crônica caracterizada pela hiperglicemia persistente.

Na cavidade oral, a principal alteração observada é a redução da função das glândulas salivares, com graus variáveis de xerostomia, o que pode ocasionar infecções fúngicas/bacterianas e alterações no paladar.

Já as manifestações gengivo-periodontais incluem:

  • alta ocorrência de cáries;
  • gengivite e periodontite;
  • sangramento gengival frequentemente;
  • sintomas de queimação;
  • úlceras orai;
  • e líquen plano.
Doença periodontal e diabetes: relação bidirecional

Existe uma forte associação entre diabetes e doenças periodontais.

Pacientes com controle glicêmico inadequado têm maior probabilidade de desenvolver doença periodontal grave.

Em contrapartida, a periodontite também interfere no controle glicêmico, pois esses pacientes costumam apresentar níveis mais elevados de hemoglobina glicada (HbA1c).

Portanto, no caso de quadros periodontais de difícil controle e sem uma causa local evidente, o diabetes precisa ser incluído como hipótese diagnóstica e investigado com exames complementares.

Doenças Imunológicas e Autoimunes

São aquelas em que o sistema imunológico ataca erroneamente o próprio organismo. A psoríase (PS) e o lúpus eritematoso sistêmico são alguns exemplos de doenças imunológicas e autoimunes.

Psoríase

A psoríase é uma doença inflamatória crônica, não contagiosa e autoimune, que afeta principalmente a pele, causando manchas avermelhadas e recobertas por escamas esbranquiçadas.

Suas manifestações orais são raras e quase sempre estão associadas a lesões cutâneas concomitantes.

Na cavidade oral, ocorrem geralmente na gengiva e no palato duro.

  • Na gengiva, apresenta-se como área intensamente eritematosa, de superfície granular e tecido friável, podendo haver estrias escamosas leucoplásicas, com relato frequente de dor ou sensação de queimação.
  • No palato duro, caracteriza-se por múltiplas máculas eritematosas e indolores.

Psoríase x Língua geográfica

A língua geográfica (glossite migratória benigna) é uma condição que apresenta forte associação com a psoríase, principalmente devido às semelhanças microscópicas entre ambas.

Contudo, nem todos os pacientes com língua geográfica apresentam psoríase, o que torna o diagnóstico diferencial um tanto desafiador para o cirurgião-dentista.

Lúpus eritematoso sistêmico

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) ou simplesmente Lúpus é uma doença crônica autoimune na qual o organismo passa a produzir anticorpos contra suas próprias células, podendo afetar pele, articulações, rins e diversos outros órgãos.

As manifestações orais mais frequentemente associadas ao LES são:

  • úlceras orais;
  • hipossalivação;
  • pigmentações;
  • glossodinia;
  • queilite;
  • artrite;
  • e síndrome de Sjögren secundária.

Lesões ulceradas devem ser biopsiadas, pois apresentam diagnóstico diferencial com outras doenças imunomediadas.

Além das manifestações orais, o dentista deve observar sinais extraorais como alterações cutâneas na face, queixas articulares e fadiga relatada pelo paciente, o que pode indicar atividade da doença e justificar o encaminhamento a um reumatologista.

Como diferenciar lesão local de manifestação sistêmica?

O diagnóstico diferencial entre o que é uma lesão de origem local e uma manifestação sistêmica pode ser desafiador para o cirurgião-dentista.

Lesões locais geralmente têm uma causa local identificável, como um trauma, hábitos parafuncionais e infecções restritas à cavidade oral, e tendem a responder ao tratamento convencional.

lesões de doenças sistêmicas podem aparecer na cavidade oral sem relação com fatores locais, apresentando características que devem alertar o profissional:

  • costumam ser múltiplas, persistentes e recorrentes;
  • podem apresentar padrões específicos (ex: líquen plano, pênfigo, lúpus, síndrome de Behçet);
  • podem estar associadas a outras manifestações extraorais (febre, fadiga, emagrecimento);
  • no geral, não melhoram com o tratamento odontológico convencional.

Diante de lesões bucais suspeitas, a abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo especialistas como estomatologistas, bucomaxilofaciais, oncologistas e patologistas, de acordo com a natureza e gravidade da lesão.

Abordagem clínica e conduta frente à suspeita sistêmica

Diante de uma possível manifestação sistêmica, é preciso seguir um protocolo clínico estruturado:

Anamnese detalhada: investigar o histórico médico, uso de medicamentos, sintomas sistêmicos e condições persistentes.

Exame físico minucioso: avaliar toda a cavidade bucal, incluindo áreas inexploradas.

Registro fotográfico: documentar alterações encontradas para acompanhamento do caso ao longo do tempo.

Exames complementares: solicitar biópsias, exames laboratoriais (como hemograma e testes de coagulação) e exames de imagem quando necessário;

Contato com a equipe multidisciplinar: acionar outros profissionais de saúde conforme a suspeita clínica;

Acompanhamento e orientação ao paciente: importante para a continuidade e adesão ao tratamento.

Condições que merecem atenção

Para se chegar a um diagnóstico preciso, o cirurgião-dentista deve estar atento a sinais de alerta como:

  • lesões suspeitas da mucosa oral, lábios, pele da face e pescoço;
  • tumefações no pescoço e região submandibular;
  • imagens radiológicas atípicas;
  • coloração e morfologia dentária incomuns;
  • mobilidade dentária inexplicável e/ou repentina;
  • sangramento espontâneo da gengiva, mucosa oral ou nariz.

Quando e como encaminhar?

Os exames complementares devem ser solicitados sempre que a anamnese e o exame físico não forem suficientes para fechar o diagnóstico. Já o encaminhamento é indicado sempre que o caso ultrapassar a capacidade técnica, estrutural ou diagnóstica do dentista.

Medicamentos sistêmicos que mimetizam doenças bucais

É importante destacar que alguns fármacos podem causar alterações na mucosa oral, mimetizando doenças ou agravando quadros já existentes. Veja a seguir alguns exemplos:

ClassificaçãoEfeito adversoMedicamentos relacionados
Saliva e glândulas salivaresXerostomiaAnticolinérgicos, anti-histamínicos, anti-hipertensivos, antidepressivos, diuréticos
Saliva e glândulas salivaresSialorreiaPilocarpina, cevimelina, fisostigmina, metais pesados
Saliva e glândulas salivaresAumento das glândulas salivaresRadioiodo, clorexidina, clozapina
Tecidos moles (mucosa)Reação liquenoideAnti-hipertensivos (betabloqueadores, IECA), anti-hiperglicêmicos, antiepilépticos, antimaláricos, AINEs, sulfonamidas
Tecidos moles (mucosa)Eritema multiformeAINEs, antibióticos, sulfonamidas
Tecidos moles (mucosa)PênfigoPenicilamina, IECA (captopril, enalapril)
Tecidos moles (mucosa)PenfigoideSulfonamidas, penicilina, furosemida, captopril, penicilamina, AINEs
Tecidos moles (mucosa)Lúpus eritematosoHidralazina, procainamida
Tecidos moles (mucosa)Erupção medicamentosa fixaNaproxeno, cotrimoxazol, barbitúricos, indometacina, salicilatos, sulfonamidas
Tecidos moles (mucosa)AngioedemaIECA, penicilina, barbitúricos, anti-hipertensivos
Tecidos moles (mucosa)Pigmentação da mucosaAntimaláricos, citotóxicos (ciclofosfamida, bussulfano), clorpromazina, clofazimina, anticoncepcional oral
Tecidos moles (mucosa)Aumento gengivalBloqueadores de canais de cálcio, anticonvulsivantes, imunossupressores (ciclosporina), anticoncepcional oral
Tecidos durosOsteonecrose relacionada a medicamentosBifosfonatos, agentes antiangiogênicos
Tecidos durosCárie dentáriaAntifúngicos, antibacterianos, antissépticos, substâncias psicotrópicas
Tecidos durosAlvéolo secoanticoncepcionais orais
Tecidos durosDescoloração dentáriaTetraciclina, clorexidina
Condições não específicasDistúrbio do paladarAntidiabéticos, anti-hipertensivos, antitireoidianos, clorexidina, antimicrobianos, opiáceos
Condições não específicasHalitoseDinitrato de isossorbida, agentes citotóxicos, DMSO, nitrato de amila, dissulfiram, paraldeído, hidrato de cloral
Condições não específicasDistúrbios de movimentoAntagonistas dopaminérgicos, antieméticos, antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos, anticoncepcionais, metoclopramida
Condições não específicasInfecções oraisAntibióticos, corticosteroides, citotóxicos, imunossupressores, antirreumáticos
Tabela adaptada do artigo: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5808263/. Alguns agentes listados podem não fazer parte da prescrição odontológica rotineira ou ter uso restrito/hospitalar.

A anamnese deve ser feita de forma criteriosa, sempre questionando o paciente sobre o uso de medicamentos e buscando correlacionar o início dos sintomas ao uso do fármaco.

Equipamentos e materiais essenciais

O cirurgião-dentista conta com vários materiais e equipamentos odontológicos que facilitam o diagnóstico precoce de manifestações sistêmicas.

Entre eles:

  • Kit clínico: indicado para exames bucais de rotina. Auxilia a inspeção visual e tátil da cavidade oral.
  • Instrumental cirúrgico: utilizado para coletar o material que será enviado para exames laboratoriais (biópsias etc.).
  • Lupa clínica: amplia o campo de visão, facilitando a identificação de lesões e outras alterações.
  • Scanner intraoral: oferece imagens digitais detalhadas, auxiliando o diagnóstico e evolução do caso.

Além de oferecer maior precisão diagnóstica, alguns deles permitem o registro e acompanhamento da evolução do caso e facilitam a comunicação interdisciplinar.

Conclusão: o dentista tem um papel essencial no diagnóstico clínico

Neste post, compreendemos a importância do dentista na identificação de manifestações orais de doenças sistêmicas, hematológicas, endócrinas e imunológicas.

Muitas vezes, ele é o primeiro profissional a observar tais anormalidades, possibilitando um diagnóstico precoce e encaminhamento médico, antes que a doença evolua para estágios mais graves.

Isso reforça a importância da atualização constante e da atuação integrada com outros profissionais de saúde. Investir em educação e nas ferramentas certas pode mudar o curso do tratamento de um paciente e, inclusive, salvar vidas.


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Leia mais:

Referências:
• https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8002330/#sec1-medicina-57-00271
• Manifestações Bucais em Pacientes com Leucemia. Alexandra Martins Seixas Teixeira ¹, Luiza de Santana Venetillo Mello1, Ednaldo José da Silva2, Ricart Gil Macedo3
• https://aps-repo.bvs.br/aps/qual-a-associacao-entre-diabetes-e-periodontite/
• http://revodonto.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-40122014000300012
• https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11049216/
• https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1590445
• https://periodicos.ufc.br/eu/article/view/79666
• https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9565705/
• https://www.ident.com.br/ia/pergunta/306337-como-diferenciar-traumas-de-doencas-sistemicas
• https://www.apcd.org.br/jornal-da-apcd/odontologia/o-papel-do-cirurgiao-dentista-no-diagnostico-e-tratamento-de-pacientes-com-lupus-eritematoso-sistemico

Publicado por
Gabrielli Nery Wandscheer

Formada em Administração pela Estácio, é especialista em Marketing e redação técnica na área odontológica.

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