Desenvolvido para tratamento de diabetes mellitus tipo 2 em adultos, medicamentos injetáveis como por exemplo a Tirzepatida, Semaglutida e Liraglutida, são amplamente utilizados de modo off-label (fora da indicação original), devido ao resultado secundário de sua ação, que é o emagrecimento.
Porém, como qualquer outro fármaco, os pacientes estão sujeitos à efeitos colaterais e adversos, incluindo impactos na saúde bucal.
Outro ponto de atenção para a Odontologia é a autorização da ANVISA do medicamento de nome comercial Mounjaro (Tirzepatida) para tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) em pacientes obesos.
Como essa condição pode ser tratada pelo dentista, o profissional pode prescrever o fármaco com base na Lei nº 5.081/66, que regula o exercício da profissão.
Por isso, é fundamental o profissional compreender as principais manifestações clínicas na cavidade oral e os riscos sistêmicos, além das implicações legais, para realizar o manejo adequado do paciente.
O que são canetas emagrecedoras?
Popularmente conhecidos como “caneta emagrecedora”, são dispositivos utilizados para aplicação subcutânea de medicamentos indicados para controle metabólico de pacientes diagnosticados com diabetes tipo 2 e recentemente, no tratamento da obesidade.
Portanto, as “canetas” não são o medicamento em si, mas sim o meio de aplicação, desenvolvido para facilitar o uso pelo paciente.
Apesar de mecanismo de ação distintos, conforme o princípio ativo, atuam do seguinte modo:
- Controle glicêmico;
- Retardo do esvaziamento gástrico;
- Diminuição do apetite, com ação no sistema nervoso central;
- Perda de peso.
Para emagrecimento, são indicados para pessoas com IMC acima de 25 que apresentam comorbidades, como por exemplo colesterol elevado, esteatose hepática (gordura no fígado), hipertensão, resistência à insulina, apneia do sono ou problemas articulares relacionados ao sobrepeso.
A dose deve ser progressiva, prescrita pelo médico responsável pelo paciente e ajustada conforme resposta clínica.
Apesar dos benefícios clínicos, não são isentas de efeitos colaterais e adversos. Os mais comuns incluem:
- Manifestações gástricas: Náuseas e vômitos, constipação, diarréia, azia, dores abdominais, e a sensação de estofamento.
- Manifestações orais: Xerostomia (boca seca), disgeusia (alterações no paladar) e halitose relacionada à mudança metabólica.
O uso indiscriminado e sem acompanhamento médico, apresenta riscos à saúde sistêmica, como por exemplo pancreatite, problemas na vesícula biliar, sarcopenia (perda excessiva de massa muscular), hipoglicemia, queda de cabelo, desnutrição e interações medicamentosas.
Além disso, sem a mudança de hábitos, que incluem a reeducação alimentar e a prática de atividades física, há risco de efeito rebote, quando o paciente recupera o peso perdido após interromper o uso da medicação.

Canetas emagrecedoras e Odontologia
As canetas emagrecedoras apresentam uma grande mudança no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas também representam novos desafios para a Odontologia.
Devido ao aumento expressivo do uso dessas medicações, o dentista deve ter conhecimento para identificar os efeitos orais e sistêmicos.
Por isso, a anamnese odontológica é uma ferramenta fundamental para promover a segurança do paciente e o sucesso do caso clínico.
O profissional deve realizar as seguintes perguntas:
- Possui alguma doença sistêmica?
- Faz uso de medicação injetável para controle de peso ou glicemia?
- Nome do medicamento?
- Tempo de uso e frequência de aplicação?
- Presença de efeitos colaterais ou adversos?
Saber identificar os efeitos indesejados, bem como o impacto na cavidade oral, é de extrema importância para o dentista garantir a segurança do paciente e promover a previsibilidade do caso clínico.
Quais são os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras na saúde bucal?
Apesar de princípios ativos diferentes, há diversos efeitos que são comuns à esses fármacos.
Listamos os que mais ocorrem, mas é importante o profissional cruzar os dados da anamnese com as informações contidas na bula da medicação utilizada pelo paciente.
Conheça os principais impactos das canetas emagrecedoras na cavidade oral:
- Retardo do esvaziamento gástrico:
- Impacta em procedimentos de sedação consciente;
- Maior risco de regurgitação e aspiração;
- É necessário reavaliar o tempo de jejum;
- Avaliar o risco e os benefícios individualmente.
Em casos que envolvam sedação, pode ser necessário suspender temporariamente o uso do fármaco.
Essa decisão deve ser baseada no risco do procedimento e realizada em conjunto com o médico responsável pelo tratamento.
- Náuseas e vômitos:
- Úlceras na mucosa oral;
- Queimaduras causadas pelo refluxo gástrico;
- Inflamação gengival;
- Erosão ácida;
- Alteração do pH salivar.
Em casos de vômitos, o dentista deve orientar o paciente à lavar a boa com água antes de escovar os dentes, para evitar o desgaste do tecido dental, além de utilizar enxaguantes fluoretados.
- Xerostomia:
É a redução do fluxo salivar, que pode causar:
- Ardência bucal;
- Acúmulo de biofilme e formação de saburra lingual;
- Risco de lesões cariosas;
- Maior probabilidade de doença periodontal;
- Possibilidade de candidíase oral;
- Halitose.
A saliva possui um papel fundamental na lubrificação da mucosa oral e no controle da microbiota.
O paciente deve ser orientado à ingerir água com frequência, manter hábitos de higiene oral e se necessário, o dentista deve prescrever o uso de saliva artificial e realizar aplicação tópica de flúor.
- Disgeusia:
- Diminuição da percepção do paladar;
- Alteração nas papilas gustativas;
- Efeito chamado de “língua de Ozempic”.
- Mudanças no eixo intestino-cérebro podem interferir nos sinais gustativos.
Para atenuar essa sensação, além da manutenção da saúde bucal para minimizar a formação de saburra lingual, é importante verificar se há déficit de vitaminas, que também pode influenciar na alteração do paladar.
- Halitose:
- Xerostomia;
- Alterações gastrointestinais;
- Gosto residual do medicamento;
- Odor cetônico e persistente, chamado de “hálito de Ozempic”.
A alteração do hálito em pacientes que utilizam as canetas emagrecedoras pode ter diversas origens.
Cabe ao dentista investigar a causa para realizar o manejo adequado para cada situação clínica.
- Desnutrição:
- Inflamação gengival;
- Doença periodontal;
- Perda óssea.
A ingestão reduzida de nutrientes como cálcio, fósforo e vitamina D afeta a densidade óssea alveolar e a saúde periodontal.
Além disso, interfere na osseointegração de implantes dentários e na estabilidade de enxertos.
Apesar do controle glicêmico auxiliar na cicatrização, a deficiência nutricional pode interferir na qualidade da reparação tecidual, além de aumentar o risco de hemorragia.
- Face de Ozempic:
A perda acelerada de gordura facial pode comprometer a sustentação muscular e óssea, impactando na:
- Mastigação.
- Fonação;
- Estética do sorriso.
Portanto, é importante o paciente realizar um exame odontológico prévio, além do acompanhamento clínico, para identificar as manifestações orais e minimizar os efeitos indesejados.
Além disso, antes de realizar o tratamento odontológica, o dentista deve aferir a glicemia do paciente, para evitar intercorrências causadas pela hipoglicemia.
Dentista pode prescrever Mounjaro?
A ANVISA autorizou o uso do Mounjauro, nome comercial do fármaco Tirzepatida, para tratamento de apneia obstrutiva do sono (AOS) em pacientes obesos.
O que é apneia obstrutiva do sono?
É a obstrução das vias aéreas durante o sono, que pode ser causada por diversos fatores, sendo os mais comuns:
- Maloclusão;
- Alterações crâniofaciais;
- Variação anatômica das vias aéreas;
- Sobrepeso e aumento da circunferência do pescoço.
Além desses fatores, também influencia no risco de AOS:
- Idade;
- Genética/Hereditariedade;
- Gênero, sendo mais comum em homens;
- Ingestão de bebida alcoólica;
- Uso de medicamentos sedativos;
- Tabagismo.
O tratamento é multidisciplinar e pode ser indicado o uso de aparelhos intraorais. Por isso, a autorização da ANVISA impacta na Odontologia.
Prescrição de Mounjauro na Odontologia
A Tizepartida é um agonista duplo dos receptores GIP e GLP-1, sendo indicado para tratamento de diabetes tipo 2 e no uso off- label para o tratamento de obesidade.
É importante lembrar que o fármaco não atua diretamente na apneia, mas sim em um dos fatores de risco, que é a obesidade, que também pode impactar no diâmetro do pescoço.
Para entender sobre a permissão para o dentista prescrever a medição, seguem informações da nota de esclarecimento do CFO:
O cirurgião-dentista possui autonomia para prescrever medicamentos, desde que sejam indicados e reconhecidos para uso na Odontologia.
Essa prerrogativa está garantida pela Lei nº 5.081/66, que regula o exercício da profissão.
O artigo 6º, inciso II, estabelece que compete ao cirurgião-dentista prescrever e aplicar especialidades farmacêuticas de uso interno e externo, indicadas em Odontologia.
Além disso, a nota emitida pelo Conselho Federal de Odontologia informa que:
- O Mounjaro foi aprovado pela Anvisa em setembro de 2023, inicialmente para o tratamento de diabetes tipo 2, só podendo ser comercializado mediante apresentação de receita;
- Em outubro de 2025, a ANVISA atendeu à solicitação da indústria farmacêutica fabricante do Mounjaro e autorizou o uso do medicamento para tratamento da apneia obstrutiva do sono em pacientes obesos;
- Nesse ponto, o cirurgião-dentista pode atuar, pois é o profissional habilitado para diagnosticar e tratar essa condição, quando devidamente capacitado;
- Assim, a prescrição passa a estar alinhada à Odontologia e dentro dos limites legais e éticos da profissão.
Ainda segundo o CFO, “ao prescrever o Mounjaro, o cirurgião-dentista deve estar ciente de que o medicamento é indicado exclusivamente para pacientes obesos e que sua indicação deve ser feita de maneira ética e responsável, observando uma série de fatores essenciais para a proteção da saúde do paciente “.
Portanto, a prescrição feita por dentistas é autorizada somente em casos de AOS, sendo proibida para fins estéticos e para o tratamento da diabetes tipo 2.
O profissional terá consequências legais e éticas se ultrapassar os limites da Odontologia, previstos na legislação e no Código de Ética Odontológica.
O uso dos medicamentos injetáveis conhecidos como “canetas emagrecedoras”, indicadas para o tratamento de diabetes tipo 2 e da obesidade, podem impactar na saúde bucal, causando problemas como por exemplo xerostomia, alterações no paladar, erosão dentária e maior suscetibilidade à carie e doença periodontal.
Por isso, o dentista desempenha um papel fundamental na identificação de sinais e sintomas orais e sistêmicos, orientação ao paciente e na integração com outros profissionais da saúde responsáveis pelo tratamento.
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Referências:
- https://dentalpress.com.br/portal/canetas-emagrecedoras-acende-alerta-para-a-saude-bucal/
- https://claudiadeluccamano.adv.br/tirzepatida-e-dentistas-ate-onde-vai-a-atuacao-profissional/
- https://www.jusbrasil.com.br/artigos/prescricao-de-mounjaro-tirzepatida-por-dentistas-prudencia-responsabilidade-juridica-e-os-riscos-da-nova-diretriz/5310551411
- https://cromt.org.br/noticias/detalhes/orientacoes-sobre-a-prescricao-de-tirzepatida-241120251358
- https://www.uninassau.edu.br/noticias/uso-de-canetas-emagrecedoras-desperta-alerta-para-saude-bucal
- https://www.einstein.br/n/vida-saudavel/canetas-emagrecedoras-conheca-os-riscos-associados-ao-uso-sem-indicacao
- https://www.einstein.br/n/glossario-de-saude/apneia-obstrutiva-do-sono
- https://website.cfo.org.br/mounjaro-pode-prescrever-e-um-ato-de-responsabilidade/
- https://www.em.com.br/saude/2025/09/7241246-por-que-wegovy-e-mounjaro-podem-prejudicar-os-dentes-e-como-evitar.html#google_vignette
- https://revista.cpaqv.org/index.php/CPAQV/article/view/1380/2357
- https://website.cfo.org.br/cfo-esclarece-canetas-emagrecedoras-e-os-efeitos-colaterais-na-saude-bucal/#:~:text=









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